Crônica vencedora do Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes mostra mecanismos que regem o poder

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O Blog do SINDI-CLUBE divulga mais um texto vencedor do Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes.

Heloísa de Queiroz Telles Arrobas Martins, associada do Club Athletico Paulistano, saiu-se vencedora na categoria crônica, com “A engrenagem”.

O júri que examinou os trabalhos, composto por Anna Maria Martins e Mafra Carbonieri, da Academia Paulista de Letras, e Joaquim Maria Botelho, da União Brasileira de Escritores, observou, em seu parecer, que a crônica de Heloísa revelou “estilo contido, sóbrio e não se perde na adjetivação inoperante. E sem dúvida nenhuma, convoca a nossa indignação ante as engrenagens do poder paralelo”.

O concurso é uma das ações do convênio entre o SINDI-CLUBE e a FENACLUBES (Federação Nacional dos Clubes).

A engrenagem

Heloísa de Queiroz Telles Arrobas Martins

A votação é aberta. Sou o próximo. A maioria apertou o botão do sim com tranquilidade assombrosa, nada que transparecesse qualquer dúvida na alma, qualquer ferrão na consciência ou receio de arrependimento. E creio que não sentissem mesmo nenhuma dessas excentricidades.

Volto no tempo, relembrando a apresentação de outro projeto, o meu, mais de um ano atrás. Inspirado em experiência bem sucedida em outros países, beneficiaria milhares de cidadãos. Era para realizações assim que tinha me candidatado e sido eleito. De início, pensei que teria o apoio irrestrito dos colegas, como as ondas rumam à praia. Espantou-me a demora no trâmite, surpreendeu-me a contestação do óbvio, chocou-me a oposição ao espírito norteador da ideia, sua relativa fácil implantação, seu incontestável resultado prático.

Meses passaram. Nenhum argumento contrário prevaleceu, como à noite sucede o dia. E então surgiu outro projeto – empréstimo de vultosa quantia a uma ONG de parente falido de um colega parlamentar. As justificativas para a concessão eram frágeis, teia de aranha que se desfaz com a mão. A finalidade da verba, camuflada com um escudo de gelo.

A princípio pasmo com a fácil acolhida por parte de alguns, logo passei ao estupor, vendo as fileiras engrossarem qual manada desembestada por capataz implacável. Poucos ainda resistiam à proposta e, uma a uma, as sentinelas da moralidade iam caindo. Em muitos casos custei a crer que tivessem cedido a tamanho descalabro, era oferecer uma arma a quem quer se matar.

A engrenagem girou, até que chegou a minha vez. Entre quatro paredes e claro como a luz do sol, o intermediário começou por elogiar o meu estagnado projeto. E logo revelou a que tinha vindo. Meu projeto seria aprovado – imediatamente após eu votar a favor da verba para a ONG. A torneira aberta aguaria dois canteiros.

Agora aqui estou, aguardando a chamada de votação. Como as ondas fustigam as pedras, lá onde não alcança a vista dos que estão na praia, resisto impassível.

Ouço meu nome e me preparo para apertar o botão de votação.

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