Conto fala de conflitos humanos e vence Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes

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O Blog do SINDI-CLUBE divulga o texto vencedor na categoria conto do Prêmio Nacional de Literatura dos Clubes.

Danielle Martins Cardoso, associada do Club Athletico Paulistano, distinguiu-se com “Tempo de viração”.

“Ela caracteriza com segurança as personagens e relaciona os impulsos psicológicos com veracidade e rigor. É uma escritora, de quem se espera – para a literatura – uma contribuição sólida e pessoal”, observou sobre a autora, em seu parecer, o júri que examinou os trabalhos do concurso.

A comissão julgadora foi composta por Anna Maria Martins e Mafra Carbonieri, da Academia Paulista de Letras, e Joaquim Maria Botelho, da União Brasileira de Escritores.

O concurso é uma das ações do convênio entre o SINDI-CLUBE e a FENACLUBES (Federação Nacional dos Clubes).

Tempo de viração

Danielle Martins Cardoso

 Beduíno cobre o túmulo com folhas secas. Rasga algumas, quem sabe não cumprem a função de jornal, mas dona Odete sente frio. Chegaram os dias de inverno, que endurecem juntas e pensamentos. Ainda assim, ele carpe. Ardem as pontas dos dedos, sobre elas Beduíno assopra ar quente e enfumaçado. Olha o parreiral adiante, procura Amilcar.

Sente cheiro de cuca de ambrosia, de cacetinhos com manteiga, Zé Biscoito reclama cuidados. Homem da mão pequena, ranzinza no trato e recheio, vendia pão com linguiça sem linguiça e deixava o dedo na balança, de modo a cooperar no peso. Sovina, diziam todos. Beduíno lhe é generoso, afasta a hera, cobre a lápide com murta e cravínias.  Todo mundo vira santo depois que morre, dizia seu pai.

 Padre Lauro tem atenção especial, Beduíno, com um graveto, cutuca letras e datas, esfrega, recolhe entulhos, o monsenhor tinha mania de limpeza. Dona Francine hoje não quer atenção, nervosa, o vento atrapalha suas ideias.  Ainda assim, ele colore o sepulcro com beijinhos e hortênsias. Seu Omero, o artesão, que antes de falecer fez a filha assinar um papel prometendo enterrá-lo com suas bonecas de madeira, recebe uma escultura de pinhas, cascalho e azaleias. Leninha, Visconde e os demais terão que esperar. A névoa chega rápido. Tempo de viração. Tateando neblina, Beduíno procura sua casa, um combinado de madeira e alvenaria sobre pedras. Pedras carregadas pelos primeiros habitantes, encaixadas, uma a uma, pelo pai, pedras que cercam os sepulcros.

Com alguma dificuldade acerta a tramela. Ainda em jejum, pensa em descascar o aipim colhido de véspera. Cresceu vendo o pai cozinhar a raiz, nela misturar farinha, ovo e cheiro verde, entornar óleo na frigideira e despejar na fritura gordas colheres. Depois, dividir as porções com o filho, galinhas e cães, eventualmente algum vizinho ou passante que dali se aproximasse. Porque bolinho de aipim era comida de partilha, dizia o pai, e Beduíno, de tanto olhar, intuiu a receita. Agora, sem ânimo, desiste de preparar a iguaria.

Sempre residiu junto ao cemitério. Tanto enterro, visto da janela, da porta, do quintal. Bastava alguém morrer e Beduíno tinha dia certo para vestir o terninho xadrez guardado atrás da porta. Porque precisava agradar o genitor e prometeu cuidados com os mortos, porque o pai ali também fora enterrado, junto à mãe que não conheceu, porque herdou o gosto, Beduíno não sabia ao certo. Concedia ao lugar cores e aromas. E de tanto carpir e adubar, criou intimidade. Caminhava entre as covas, manso, atento, disposto. Tinha gosto no ofício, andava quilômetros para achar as flores ideais para cada defunto – aos pais nunca faltou amor-agarradinho. Precisavam dele, vivos e mortos. Ali não caçoavam ou limpavam a mão na camisa.

Hoje, pulmões duros pela friagem, tosse que fecha a garganta – o pai morreu assim, arquejante, glote fechada, o coração em tormento – levanta o rosto, o Sol tenta vencer a névoa, a viração quer se despedir. O céu virá azul. Imagine, menino, um céu azul-maria, a cor dos olhos da sua mãe, cantava o pai. Suzana morreu no parto, Beduino agarrou, como se teimasse em permanecer no eterno. Ela desistiu, ele resistiu. O enrosco do cordão o deixou – o povo falava – meio atrapalhado das ideias. E nasceu encardido. O azul-maria morreu na mãe.

Acende o fogo, aquece o café. Tem os pés gelados, raspa a meia no chão. Os túmulos, quentes. Covas bem medidas, ornamentos e companhia. A roça reclamando cuidados, duas vacas, galinhas, quatro porcos, muito afazer. A vasilha com angu e ração continua ali. Amílcar deve estar com frio. Desapareceu na mesma noite que se esqueceu dos chinelos com a sola virada para cima, na mesma noite em que ouviu um zumbido e procurou besouro preto, puxando bancos, varrendo o chão, sacudindo panos, na mesma noite que os quero-queros cantaram madrugada inteira.

Beduíno foi o filho feio e murcho que apagou a lucerna do lar. Os poucos parentes que se preocuparam sugeriram que a roça fosse vendida, a cidade era distante, mais perto, mais ajuda. O pai travou batalha. Não. Sua vida estava enterrada no Morro. Onde nasceu, onde permaneceria. Abraçou o filho, seios não tinha, ofereceu-lhe ombros magros e encovados, cozinhou, cuidou da terra e dos animais e não presenteou o menino com madrastas.

Sangue Beduíno não viu. Procurou pela estrada, vasculhou buracos, chamou: Milca, Milca. A dificuldade em respirar, o peito pesado, a lida diária, difícil de ser vencida. Esfrega as mãos. Mais ainda os pés. Há tempos deixou de vender aipim e verduras na cidade, comida enfeitiçada, o povo dizia. Também os partos. Por muito tempo foi o parteiro da região, não de gente, mas de vacas, porcas e ovelhas. Bastava alisar o ventre, penetrar com dedos, tocar piano. E o filhote se esticava, pronto para a luz. Cismaram, no entanto, quando um bezerro nasceu sem cabeça.

A cidade se esqueceu de Morro Calçado. Vez ou outra alguém aparece com uns raminhos, sem olhar para os lados. Os mortos, muito velhos, a estrada de terra comprida demais, o povo ocupado com outras mortes. O Cemitério Municipal, mais cinza, mais próximo. Os que ali restaram não foram transferidos. Tentaram um dia, sem muito esforço. Afinal, estavam bem cuidados.

Amílcar. Único presente que a cidade lhe ofereceu, nas últimas andanças com o pai, em troca de leite e ovos. Beduíno lampejou ao sentir a cadelinha branca e magra lamber-lhe os dedos. O pai concordou e a batizou, acreditando macho, disseram que era macho. Não conferiu. Dias depois, percebido o engodo, apelidou: Milca, facilitando para o filho, que tinha a língua travada.

Uma fritada de bolinhos. Beduíno recobra o ânimo. Come o seu quinhão, toma mais café, deixa na latinha de Milca o restante do aipim e volta para os sepulcros. Assovia. O parreiral, o entardecer lilás, céu de geada. Os quero-queros não piam.

Beduíno sorri torto. Ajeita Omero, mais uma vez cobre Odete com gravetos, afasta carrapichos, conversa com Francine, pede benção aos pais, fala de Amílcar. Olha padre Lauro e se lembra dos últimos pecados. Não varreu a casa, não ordenhou e das galinhas nem sabe ao certo. Com frio, senta-se ao pé da araucária. Dali enxerga a roça. A garganta arde. Os dedos, endurecidos. Milca está demorando. Fecha os olhos.

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