Conheça o conto vencedor do Prêmio Literário Sindi-Clube/APL

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O Blog do Sindi-Clube passa a publicar os textos vencedores do 4º Prêmio Literário Sindi-Clube/APL.

Concorreram trabalhos de 74 participantes associados de 24 clubes, de dez cidades paulistas, nas categorias poesia, crônica e conto.

Os textos foram analisados por uma comissão julgadora designada pela Academia Paulista de Letras (APL), constituída por Anna Maria Martins, Mafra Carbonieri (membros da APL) e Joaquim Maria Botelho, presidente da União Brasileira de Escritores.

A seguir, leiam o texto premiado como melhor conto, de autoria de Danielle Martins Cardoso.

Na análise da obra, a comissão julgadora da APL, observou:

É um conto sobre o chão movediço do testemunho infantil perante um juiz e a solenidade aterradora da justiça. Prosa madura, encorpada, consciente da verdade que se desfaz em barro – sem recuperar o fato que se confunde com suas possíveis versões.

BARRO

Danielle Martins Cardoso*

Samuel não respira. Entre ele e o picolé, uma abelha. Ela denuncia o rescaldo de chicabon que escorre entre os dedos. A avó insiste, rápido, menino, que já vão chamar, não dá tempo de lavar as mãos, o banheiro é longe, vai. Limpa o que pode na calça, na blusa enxuga a boca. A abelha quer seu quinhão, tenta espantá-la, vu, vu, enquanto segue para o Tribunal. O barbudo que ali monta guarda avisa, vão falar seu nome. O menino espera, esfregando as mãos. A porta se abre, ele estica o olho. No alto, o juiz de capa preta, ao lado três policiais e entre eles uma cabeça raspada. O pai? Estremece, num quase espasmo. A abelha havia encontrado, na calça surrada, um gordo pingo marrom-glacê e ali se deliciava até ser surpreendida por dedos ameaçadores que ansiavam sossego. Samuel pousou a mão direita na coxa. Agora, trava os dentes e procura, com indicador e polegar, o ferrão. O juiz mandou entrar, vamos, ordena o barbudo.

Samuel caminha, boca trêmula, olhos cheios. O ferrão queima. Passa pela cabeça raspada, pisca, tentando esvaziar os olhos. A cabeça se mexe. É meu pai. Um odor conhecido toma conta das narinas. Chinelo azul, uniforme cinza, algemas. O pai com cheiro daquele remédio azul de matar carrapato, sem cabelo, parecendo o Bilu. O pai não gostava do cachorro, chutava tanto que o bicho desancou. Agora, olho no chão, sarnento igual.

O ferrão castiga, precisa encontrá-lo. Uma cadeira, no final do percurso. É para se sentar. Obedece e com a mão esquerda acaricia o anular direito. Ao lado, gente com cara amarrada, todos o observam. Não encara. Conhece olhos farpados. Um livro preto, maior que a bíblia, descansa sobre a mesa. Atrás, um ventilador, também preto. Faz barulho, vento não. O juiz afasta o livro, puxa um processo gordo e amarrotado, molha o dedo na esponja e procura, folha a folha. Samuel remexe, olhos transbordam. Pisca novamente, muitas vezes, precisa enxergar. E consegue. Boca na mão, cospe o incômodo. O juiz lê em voz alta, pergunta. Samuel aperta o dedo. O juiz insiste, o menino imagina Bilu alegre, brincando de morder. O juiz está lendo de novo. Samuel observa o pai. As mil pedras jogadas com ele nas colmeias, joga e chispa, moleque. Ateavam fogo nos marimbondos e vespas, gostavam de ver os bichos doidos com a fumaça, depois corriam, corriam, fugindo da vingança. O juiz mostra uma folha do processo, na Delegacia, foi o que disse, que viu seu pai colocar veneno de rato na comida da sua irmã. O dedo lateja, a dor caminha até o topo da cabeça. O juiz continua, até a quantidade mencionou, três bolinhas na sopa, e a irmã tomou, passou mal, você chamou a vizinha gritando, a nenê comeu chumbinho, a nenê comeu chumbinho, está aqui, escrito e assinado. Samuel vira a cabeça, olha o pai, aquela menina chorava demais. Disse não, senhor.

As algemas se mexem, Samuel não desvia o olhar. O ferrão foi embora, mas o dedo arde. E engorda. E endurece. Você sabe o que está fazendo? Pergunta o juiz, que tira os óculos e esfrega a testa, cansado de imprevistos. A mulher na Capital, a promoção que tarda, ele enterrado naquele cafundó, administrando casos, vazamentos, duas hérnias.

Garoto, como testemunha, tem o dever de dizer a verdade. O júri precisa da verdade. Você contou que o réu queria se vingar da sua madrasta e ameaçou dar cabo da menina, só para ver a mulher sofrer. Veja bem, os exames, o perito confirmou, a criança morreu envenenada. Chorava demais, o menino não responde, dedo duro, fustigante. Transborda, faz beiço, engole soluço, nariz escorre, lágrimas dissolvem o mel do queixo, peito, blusa. O juiz fecha o processo e observa a prova-chave da acusação. Doze anos, camisa de time, cabelo quase moicano, magro e amarelo. Acusou o pai de ter matado a irmã e agora falseia precipícios.

O pai sabia ser divertido, o pai colocava rumo naquela casa, a avó dizia. Uma vez foi picado. O pai já havia alertado, corre e se vira, porque se levar ferroada apanha. Samuel gritou sem querer, o pai percebeu o lábio inchado, levantou a mão, o menino fechou os olhos, esperando o bofete. Confia, o pai disse. E segurando o queixo, puxou o ferrão do lábio superior. Depois, abriu as calças e urinou. Da terra montou o barro, sentou como índio, deitou o menino no colo e moldou-lhe a boca. Samuel flanou, a alma em bálsamo. Aquele nenê era tudo naquela casa. Um nenê que não servia pra nada, só sabia chorar e fazer cocô.

Se seu pai não colocou o veneno, quem foi então? O menino levanta os ombros, o pai a cabeça, o juiz o martelo. Bate, com vigor: pausa para o café.

JMS_1981 blog b*A autora, Danielle Martins Cardoso, é magistrada, escritora e associada do Club Athletico Paulistano.

 

 

 

 

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