Conheça mais um texto premiado no Prêmio Literário Sindi-Clube/APL

Foto, fonte: http://www.pinterest.com/pin/467741111270346105/
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A observação atenta de Sílvia Cachone narra de forma delicada a elaboração de um ninho.

Mesmo mantendo distanciamento, o texto descreve como aquela concepção sensibiliza quem acompanha o paciente trabalho do pássaro.

O texto ficou com o terceiro lugar na categoria crônica.

O ninho

Sílvia Cachone*

Ela já tinha começado com os preparativos, daquele seu jeito meio descuidado. Uns gravetos mal arranjados, sem capricho mesmo. Mas era um ninho.

O calheiro coçou a cabeça ao encontrá-lo na calha que precisava reparar. Olhou para o que sobrara do coqueiro e se decidiu a transferi-lo, com muito mais capricho do que ela mesma tivera com seu ninho, para o topo do tronco. Fixou-o com pregos para ter certeza que ele não cairia.  Ninguém acreditou que ela fosse adotar o ninho transferido, mas contrariando as expectativas ela se ajeitou lá e esperou.

Ficávamos torcendo para que não chovesse forte e para que o sol não fosse muito inclemente.  A cada vez que olhávamos para o coqueiro lá estava ela, paciente e irredutível em sua espera. Os dias vinham e iam e ela nos espiava lá de cima, cumprindo o ciclo que a natureza lhe impunha.

A sua espera fazia-me lembrar da minha. Teria ela também curiosidade em conhecer sua cria? Sonhos, planos, expectativas?

Chegou, enfim, o dia em que notamos que já havia outra cabaça no ninho. Ela, agora mãe, não descuidava do filhote. Ele estava sempre sob suas asas e nos observava lá de cima. Criaturas tão estranhas… Ficamos todos felizes com a novidade. Um nascimento é um nascimento. Não importa a espécie em questão. Logo o filhote já ficava mais exposto e crescia a olhos vistos.

Foi num dia como qualquer outro que ela, então, levou o filhote para explorar as árvores ao redor. Vi o ninho vazio e os avistei sobre a árvore vizinha. Como acontece conosco sempre há a hora de deixar o ninho e conhecer o mundo.

Foi então que aconteceu. Fui ao quintal e notei que ela estava sobre a árvore sozinha e posso jurar que vi certo desespero em seus olhos. A percepção do que acontecera me atingiu como um raio. O cachorro! Fui correndo até sua cama e o encontrei lá com o que sobrara do filhote me olhando com algo entre arrependimento e orgulho. Sim, orgulho, o instinto animal não arrefecera mesmo sem precisar dele para sobreviver. Recolhi com o coração apertado o que restara do filhote e limpei o lugar todo. Joguei fora seus restos e lavei as cobertas sujas com algumas manchas de sangue. 

O pior estava por vir. Ao sair para o quintal lá estava ela, de volta ao seu ninho, agora vazio. Por uma fração de segundo trocamos um olhar em que nossos corações de mãe se confraternizaram na tristeza da perda.

Ela voou para o muro alto e de lá, antes de voar embora de vez, olhou mais uma vez para seu ninho, agora vazio e inútil.

*Sílvia Cachone é associada do Caiçara Clube, de Jaú (SP).

Concorreram no Prêmio Literário Sindi-Clube/APL trabalhos de 74 participantes associados de 24 clubes, de dez cidades paulistas, nas categorias poesia, crônica e conto.

Os textos foram analisados pela comissão julgadora constituída por Anna Maria Martins, Mafra Carbonieri (membros da APL) e Joaquim Maria Botelho, presidente da União Brasileira de Escritores.

Visite o portal do Sindi-Clube e saiba mais de assuntos que interessam ao seu clube.

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