A crise hídrica e as piscinas: entenda o consumo de água nos parques aquáticos e conheça medidas que evitam perdas

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Nilson Maierá*

No ideograma chinês, crise significa também oportunidade.

Nunca acreditei nessa afirmação, mas parece apropriado, agora, para a recente crise da água, relacionando-a às piscinas.

Isto é, podemos reduzir drasticamente o consumo da água, sem prejudicar sua funcionalidade, evitando-se a completa desativação das piscinas.

A mídia tem noticiado várias maneiras de evitar desperdício  de água e, ao mesmo tempo, indicado várias maneiras de economizá-la.

Um dos casos de perdas de água ocorre em piscinas.

O Brasil, com mais de dois milhões de piscinas, deve preocupar-se com essas perdas.

Na mídia, é mencionado que condomínios estão desativando piscinas parcialmente durante a semana, ou completamente, até o fornecimento do abastecimento de água voltar a se normalizar.

A desativação completa da piscina é uma medida bastante radical, uma vez que soluções que vamos mencionar abaixo podem gerar grande economia de água.

Esta seca não é privilégio do Brasil e, em especial, São Paulo.

Em 2008, o estado da Geórgia nos Estados Unidos promulgou uma série de leis proibindo o enchimento de piscinas novas ou reformadas e ainda o de piscinas já existentes, somente em certos dias e determinados horários.

Com a melhora das condições de chuva e com a explicação dos construtores de piscinas mostrando que o consumo de água em piscinas era inferior a irrigação dos campos de golfe, esta lei foi atenuada.

No estado americano da Califórnia, que sofre com seca há quatro anos, também se procurou, através de leis, limitar o consumo de água em piscinas.

A seguir, para entender melhor o consumo de água em piscinas, vamos nos ater aos principais tipos de perda de água que ocorrem nelas.

  1. Água derramada: perdida pelo uso da piscina. São dois os tipos:

– espirrada pelos próprios usuários na sua introdução na água, principalmente após um mergulho;

– carregada, água que o usuário e suas vestimentas levam ao sair da piscina.

  1. Aspiração: água perdida quando essa operação é feita drenando a água diretamente para o esgoto.
  1. Retrolavagem e enxaguamento: na operação de limpeza do meio filtrante.
  1. Drenagem forçada: quando a concentração de sais de cálcio e de ácido cianúrico estão acima dos valores recomendados.
  1. Purificação: quando se joga água fora para diminuir a concentração de cloraminas e teor de sólidos elevados.
  1. Vazamento: perda ocasional, porém não incomum. Pequenos vazamentos são de difícil detecção.
  1. Evaporação: a temperatura alta da água da piscina e fortes ventos aumentam a evaporação, assim como temperatura e umidade relativa do ar baixas. Da mesma maneira, piscinas que não utilizam de capa térmica aumentam a evaporação.

Enquanto todas as perdas anteriormente citadas, a de água é acompanhada da perda de produtos químicos, impurezas e de calor, na perda por evaporação inexiste a perda de produtos químicos e apenas a de água e de calor.

Vamos imaginar uma piscina retangular de 7m x 14 m e com profundidade média de 1,22 m.

A área é de 98 m2 e volume de aproximadamente 120 m3.

Nesse caso, usa-se uma bomba de 2CV, com vazão aproximada de 22 m3 por hora.

Vistas as principais perdas, vamos ao que pode ser feito para reduzi-las:

  1. Agua espirrada: proibir a ação de mergulhar. Com isso, a perda pode ser bastante reduzida. No caso de água derramada, a redução de perda de água, desprezível, somente se consegue com a inativação da piscina.
  1. Aspiração: sempre que possível e na maioria das vezes, é possível aspirar, filtrando, evitando aspirar drenando. Feita semanalmente, com duração de meia hora e se jogada diretamente para o esgoto, haverá uma perda de 11 x 52 = 572 m3 no ano.

Esse valor poderá ser muito reduzido, por exemplo, em 70%, o que resulta numa economia de 400 m3no ano. O uso de robôs independentes com filtro acoplado diminui muito a aspiração, com grande economia de água, aliado à redução de mão de obra e maior economia de energia elétrica.

  1. Retrolavagem: fazer a operação apenas quando os manômetros do filtro recomendarem. Mesmo nesse caso, a retrolavagem pode ser postergada. Se de um lado a vazão vai diminuir (desvantagem), de outro, a filtração vai melhorar (vantagem). Uma operação dessa, de 5 minutos semanais, terá um gasto de 22 x 5/60=1,8 m3 por semana. Portanto, de 1,8 x 52 = 94 m3 por ano. Podemos reduzir esse valor em 50%, que equivale a 47 m3 por ano. O uso de visor de retrolavagem é também uma maneira de evitar desperdício.
  1. Drenagem forçada: excesso de cálcio ou de ácido cianúrico só pode ser removido retirando-se parte da água da piscina. São fontes de cálcio a água de certos poços artesianos e o tipo de cloro denominado hipoclorito de cálcio. São fontes de ácido cianúrico o dicloro e o tricloro. Numa piscina, a dureza cálcica ideal deve estar entre 200pm e 400pm e de ácido cianúrico entre 30pm e 50ppm, não sendo recomendado passar de 100ppm.

No caso de abastecimento por água de poço artesiano, verifique a concentração de cálcio. Se for alta, procure evitar o uso. Uma solução é alternar o uso de hipoclorito de cálcio com di ou tri-cloro. Mas esses dois produtos, juntados, resultam numa mistura explosiva.

Outra solução é usar o cloro líquido. Podemos dizer que não existe economia de água porque a maioria dos operadores de piscinas não faz essa operação com perda de água.

  1. Purificação: procure diminuir essa perda, deixando de lado a melhor qualidade da água. Na realidade essa operação raramente é executada pelos operadores de piscinas.
  1. Perdas por vazamento: geralmente ocasional, mas com probabilidade de perda de água considerável. Vamos supor uma perda de 4 cm de água por dia, o que equivale a 0,04 x 98 = 3,96 m3 por dia. Por ano, 3,96 x 365 = 1.430 m3. Tão logo haja a suspeita de vazamento, deve ser sanado.
  1. Evaporação: água que se perde pela evaporação devido a fatores climáticos, pelo vento e pela temperatura da água da piscina, entre outros.

O uso de qualquer tipo de capa evita perdas por evaporação, aproximadamente, pela metade.

Se a piscina não tem grade de segurança, é indicada uma capa de proteção que, ao mesmo tempo, diminui a evaporação e protege a piscina de afogamentos e inclusive sujeira do ar. Isso inclui as piscinas aquecidas e não aquecidas.

A eliminação por evaporação é a única perda de água pura, o que piora a qualidade da piscina. O vento em tanques descobertos é também aumenta a evaporação. Colocação de barreiras diminui essa ação negativa.

É recomendável que as piscinas sejam cobertas por capas, inclusive as cobertas e não aquecidas.

Procure usar uma temperatura um pouco mais baixa na piscina com economia de água e também de energia.  Com o uso da capa é possível diminuir a evaporação de 2 cm por semana para apenas 1 cm. A economia será de 0,01 x 98 = 0,98 m3 por semana, e 0,98 x 52 = 51 m3 por ano.

As perdas ainda podem ser diminuídas, se a água perdida for reaproveitada.

Instalações novas podem prever tanques de reaproveitamento, e as existentes podem ser adaptadas.

A água poderá ser reutilizada para limpeza, regas de quadras de tênis e gramados (neste caso, o cloro deve estar com baixos teores).

A água de reaproveitamento não deve voltar para piscina, principalmente devido ao alto teor de sólidos dissolvidos.

Esvaziamento, não

Esvaziar a piscina é uma atitude que não deve ser tomada em hipótese alguma – a não ser para corrigir vazamentos na sua estrutura ou troca de azulejos, e a operação deve ser feita no menor prazo possível.

Piscinas vazias podem ter sua impermeabilização danificada.

As piscinas localizadas sobre lençol freático só podem ser esvaziadas por empresas especializadas.

Se a piscina for desativada por longo período, superior a uma semana, seu tratamento não deve ser abandonado para que ela esteja preparada para seu reinício imediato de uso.

Cabe aqui uma observação para clubes em que a água de chuveiro tem proporções maiores de desperdício do que nas piscinas.

Tenho visto vazões da ordem de 24 litros por minuto, quando o ideal seria de 12 litros por minuto.

Existem no mercado modelos de chuveiros com vazões menores, mas com a sensação de vazão maior.

Também é correto usar circuladores de água nos chuveiros para evitar a perda de água durante a espera pela água quente, fato este agravado no aquecimento centralizado.

Nesta crise, aumentaram-se muito os banhos de chuveiro nos clubes.

* Nilson Maierá, consultor da área de piscinas da Universidade Sindi-Clube, é engenheiro químico pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e pós-graduado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas.

Maierá mantém um site – Piscina Litro a Litro – com informações completas sobre o tema.

Visite o portal do Sindi-Clube e saiba mais de assuntos que interessam ao seu clube.

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2 pensamentos em “A crise hídrica e as piscinas: entenda o consumo de água nos parques aquáticos e conheça medidas que evitam perdas”

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